Tecnologia auxilia no controle das arboviroses

Nathállia Gameiro

 

As transformações digitais estão cada vez mais presentes na saúde, auxiliando o tratamento de pacientes, realização de pesquisas, aprendizagem e treinamento. Essas novas tecnologias também podem ser utilizadas para o monitoramento de doenças, como mostrou o Seminário Controle das arboviroses: inovações aplicadas, realizado no Centro de Eventos do Ceará, durante a 3ª edição da Feira de Soluções para Saúde.

O aplicativo do Sistema de Informação em Saúde Silvestre – SISS-Geo, projeto da Fiocruz, auxilia na tomada de decisões e orienta ações. O projeto conta com a colaboração da sociedade para monitorar emergências de zoonoses e impactos ambientais em tempo real. A pesquisadora Márcia Chame destaca que os processos de monitoramento são dificultosos para a vigilância, o que pode comprometer o diagnóstico que depende da rapidez e da oportunidade de coleta e necropsia do animal. Assim, o aplicativo permite a criação de um banco de dados ambientais e ecológicos, relatórios, registros fotográficos e outras informações disponíveis que geram alerta automático para o gestor de vigilância e imunização em saúde, o que permite a rápida ação antes que os patógenos acometam humanos. O aplicativo mostra ainda as áreas prioritárias para a vigilância e imunização e permite ver os corredores de propagação e dispersão do vírus.

Em Recife, 2015 e 2016 foram os anos mais críticos, com a tríplice epidemia de zika, dengue e chikungunya. Ano em que surgiram também os primeiros casos de microcefalia no Brasil. O secretário Municipal de Saúde do Recife, Jailson Correia, conta que a cidade foi tão impactada com a zika, que o governo do estado procurou resolver os problemas engajando também a sociedade, os agentes comunitários de saúde e agentes sociais pedindo reforço na vigilância nas casas.

Em 2019, intensificou as ações nas mídias digitais, formalizou o papel dos agentes comunitários de saúde e passou a utilizar inovações com câmera de sensibilidade por calor, treinamento com empresas e brigadistas para ações nas escolas e a junção de dados para analisar os municípios e para uma rápida resposta.  Foi utilizada também a técnica do inseto estéril para a diminuição do mosquito Aedes Aegypti em áreas urbanas e o uso de drones para o mapeamento e apoio aos trabalhos de agentes ambientais.  O secretário destacou o papel das novas tecnologias na vigilância e orientação para ação.

O projeto Arbo-Alvo mapeia as áreas de risco para dengue, chikungunya e zika em Campo Grande, Belo Horizonte, Recife e Natal e busca novas estratégias de vigilância para essas doenças, auxiliando autoridades para a criação de ações mais eficazes em cada município. Assim, são analisados indicadores sociodemográficos (dados do IBGE, imagens de satélite e outras fontes disponíveis), climáticos, ambientais, entomológicos e epidemiológicos, além da infraestrutura sanitária, condições de moradia e entorno, renda, demografia, uso de solo e clima e capacidade operacional da vigilância de mosquito. As cidades foram escolhidas por terem população e território heterogêneos.

O objetivo é caracterizar o padrão temporal de faixas de incidência das arboviroses, identificar bairros com altas incidências das doenças e entender como se dá a difusão da epidemia nesses locais. Para acelerar o repasse das informações, será implementada proposta de comunidade virtual e ferramenta online de consulta e indicadores de epidemias.

Outro projeto da Fiocruz é o World Mosquito Program Brasil (WMPBrasil), em parceria com o Ministério da Saúde, que consiste na liberação do Aedes com o microrganismo Wolbachia na natureza, reduzindo sua capacidade de transmissão de doenças e fazendo com que, ao se reproduzirem, gerem novos vetores com as mesmas características. A Wolbachia está presente em grande parte dos insetos na natureza, mas ausente no Aedes e não faz mal à saúde da população. Antes da liberação do mosquito alterado no ambiente, é feita a conscientização da população sobre o método e conta inclusive com a participação de lideranças comunitárias, moradores, unidades de saúde, escolas e ONGs. A cada 50 km são liberados 150 mosquitos.

O Wolbachia foi liberado no Rio de Janeiro e em Niterói em 2016 e a equipe faz o monitoramento. “Foram beneficiados 946 mil pessoas no Rio de Janeiro e 373 mil em Niterói. Nos últimos anos não foram vistos casos de dengue, zika e chikungunya nessas áreas. Mas é importante lembrar que o método é complementar, ainda é necessário reduzir o acúmulo de água em casa”, destacou o pesquisador Luciano Moreira.

Feira de Soluções

A terceira edição da Feira de Soluções para Saúde: Saúde Digital para Territórios Saudáveis e Sustentáveis foi realizada em Fortaleza – Ceará e recebeu mais de mil pessoas. Competições, soluções industriais, de serviços de saúde e sociais, simpósio, relatos de experiência, cursos, palestras, oficinas, jogos, atividades culturais e painéis integraram a programação do evento de 16 a 19 de outubro. Participaram gestores, trabalhadores e usuários do SUS, pesquisadores e estudantes, movimentos sociais e governos.  As soluções cadastradas fazem parte de um banco de soluções, acessível aqui. Confira a cobertura completa no site: https://agora.fiocruz.br/blog/